10.16.2016

Uma Cidade Chamada Inspiração, Luis Carlos Lucafe

UMA CIDADE CHAMADA INSPIRAÇÃO

Por: Luis Carlos Lucafe

Vou me apresentar: Me chamo Anfitrião da Silva e moro em uma cidade pequena mas muito aconchegante chamada Inspiração. Fica localizada em uma área encantadora onde os pássaros tem a incumbência de acordar os habitantes com sinfonias maravilhosas. Tudo funciona muito bem, como se Deus regesse os acontecimentos com sua batuta divinal.
Em minha cidade tudo acontece de uma maneira muito especial pois privilegiados que somos, temos o tempo inteiro para a criação. Poetas, pintores, escritores colhem as ideias como frutas em um farto pomar. Porisso, o nome da cidade não é mera coincidência. Todos são beneficiados por este dom. Mas hoje vou falar da música e de seus representantes. Artistas que são, não deixam de absorver o que lhes é oferecido: Muita Inspiração.
O fato que vou contar se deu há algum tempo atrás e nem me lembro bem a data exata. Numa bela tarde de domingo, os jovens moradores de Inspiração se deram com uma linda jovem, recém chegada à cidade. O ponto de encontro da juventude local é a praça principal, onde a paquera e os namoros acontecem. E foi exatamente lá que a moça resolveu passear. Os olhares imediatamente se voltaram para ela. Seu andar, lento e compassado vinha acompanhado de um balanço dos quadris e um charme especial. Sua simpatia se espalhava pelo local e era sentida como se um perfune encantador irradiando magia atingisse a todos. Os rapazes estavam maravilhados. Suspiravam e imaginavam ter a honra de também encantar a linda moça.
Neste dia, a praça estava praticamente lotada. Lá estavam o filho do prefeito, rapaz de linhagem familiar chamado Rima, os sobrinhos do Juiz de Direito, o Bolero e o Maracatu, e também o despojado Rock, cujas vestimentas se destacavam por serem de couro negro. Braceletes pontiagudos brilhavam quando expostos ao sol. Bolero, elegantemente vestido, passava a mão pelos cabelos como se a todo momento um mísero fio saísse do lugar adequado. Maracatu estava mais à vontade pois não era assim tão ligado à sua aparência, embora procurasse também se mostrar disposto a flertar com a dama. Ali também desfilavam o Forró, primo de primeiro grau do Padre Baião, pároco local que, como já havia terminado a missa, passeava também pela praça carregando aos braços o gato de estimação chamado carinhosamente de Xóte. O jovem Frevo, com sua sombrinha colorida, exibiu-se com uma agilidade ímpar quando passou pela moça, além do irreverente Xaxado que boquiaberto também admirava tal beleza.
Nesse momento, quando o silêncio, era assustador e só podia se ouvir suspiros e sussurros, eis que o irreverente Menestrel aproxima-se da jovem e lhe diz:
— Preciso saber seu nome, para que meu dia seja mais feliz.
A jovem após um breve silêncio respondeu:
— Me chamo Poesia. Vim visitar sua cidade pois meu primo, que se chama Carnaval, me incumbiu de uma missão: Preciso encontrar uma pessoa, que me transforme em música.
Nesse momento, o silêncio que já era de impressionar tornou–se ainda mais notório. Também pode-se ouvir uma breve exclamação. Menestrél voltou-se para os presentes e indagou:
— Quem poderia ajudar a jovem donzela?
Todos os rapazes se prontificaram. O Forró, o Frevo, o Maracatu e Baião e outros falaram em uníssono:
— Eu posso !
— Calma! Deixem a moça explicar melhor.
Nesse momento, alguém que ainda não tinha se deixado ver, aproxima-se, com passos gingados levemente trançados, em direção da jovem e bela Poesia.
— Permita-me apresentar-me. Eu sou o Samba.
Agora, o silêncio abandonou a Praça e o burburinho assumiu seu lugar. Todos estavam impressionados com a audácia daquele moreno alto, de terno branco engomado que tinha o gingado como marca principal. Tirou o chapéu da cabeça e seguiu em direção à moça.
A jovem ficou impressionada. Não foi difícil perceber que Poesia se encantou com Samba. Os olhares se fixaram um ao outro e por um período não se desviaram. O universo usou de toda sua perspicácia e os envolveu em seus braços fortes e tornou impossível que reagissem em sentido contrário. Cupido, que sobrevoava o local pousou sobre o galho de uma árvore e daquele local foi impossível errar o alvo. Flechou-os e o amor irradiou-se e seu efeito foi logo sentido por Samba e Poesia.
Logo ouviu-se um grito do fundo do peito vindo do indignado Rock, que não entendera a decisão mas rapidamente voltou atráz e, com sua voz rouca, proferiu também umas palavras de incentivo ao casal e ao final mostrou os dedos polegar e mínimo colocados de forma que os demais ficassem dobrados junto a palma da mão, urrando novamente. Daí o Frevo pegou sua sombrinha, colocou-a embaixo do braço e se retirou. Assim também fizeram os demais.
Com a elegância que lhe é peculiar, o Samba pediu a palavra.
— Calma gente. Sei que fui atrevido ao me colocar à frente de tão bela jovem e pretensioso em realizar a missão dada à ela. Esta jovem, chamada Poesia pertence a todos nós. Cada qual com sua maravilhosa arte. Só que eu fui mais rápido. Enquanto vocês estavam apenas observando eu tive a coragem de me apresentar. Agora cabe a ela decidir quem irá musicá-la. Eu apenas deixo aqui registrado a minha intenção de torná-la uma linda canção, que possa alegrar multidões, que ecoe por todos os cantos, levando essa sagrada missão que é a dada a todas as músicas, de todos os gêneros.
E Poesia respondeu ao Samba. Falando suavemente, com palavras rimadas e envolventes, demonstrou o interesse de tê-lo como gênero a ser usado para musicá-la.
— Sim, quero ser um Samba.
O primo de Poesia, Sr. Carnaval, quando soube da notícia ficou muito feliz e fez votos de felicidade eterna ao casal. Comunicou a todos os seus parentes. Avisou o samba enredo, o Partido Alto, o Pagode, o Samba Canção e o Samba Exaltação. Contou para o Samba de Gafieira e o Samba Carnavalesco. Todos responderam ao convite de participarem, cada qual na sua modalidade musical e se dispuseram a segui-los por onde fossem.
Em um bar, comumente frequentado por algumas pessoas como o Sr. Violão, apreciador de uma cerveja gelada acompanhada de um bom papo, usou seus bordões para executar um magistral elogio ao casal, um tal de pandeiro, que de tão feliz fez rufar suas platinelas como se etivesse aplaudindo a notícia, o Surdo, cidadão de corpo avantajado, dono de um sorriso bonito que, empolgado repicou o couro de seu instrumento. E Cavaquinho, moreninho alto e de sorriso aberto, solou uma canção tão linda que todos pararam para aplaudir. Chacoalho, também apelidado de Ganzá também se fez notar perante os outros.
E assim, todos os demais frequentadores como o Sr. Tamborim, D. Cuíca e D. Timba, imediatamente deixaram as cervejas e caipirinhas sobre o balcão e se dirigiram ao encontro de Samba e Poesia. Eufóricos, gritavam:
— Estamos com vocês. Estaremos prontos para atendê-los quando precisarem de nós. Seremos seus amigos e parceiros para sempre.
Não pensem que os outros moradores da cidade se entristeceram com o fato. Poesia, em seu discurso de aprovação ao Samba, fez questão de mencioná-los e se colocar à disposição para quaisquer eventualidades. Não poderia deixá-los sós, sem as letras maravilhosas que saiam de dentro dela. Imaginem o que seria do Cordel, senhor de uma simpatia peculiar se não fosse a sua Poesia. Até o Rock, rapaz de rebeldia pacífica, que profere palavras certas na hora exata se sentiria desfalcado se dela fosse tirado. O Forró, nas festas de São João, e assim sucessivamente. Com a sabedoria de uma diva, Poesia conquistou não só o Samba mas a todos os outros.
E foi assim que Samba e Poesia se conheceram, se apaixonaram e de sua descendência nasceram muitos filhos. Muitos mesmo. Cada um mais bonito que o outro. E vieram netos, bisnetos, sobrinhos e afilhados. Intérpretes com vozes aveludadas, ritimistas, com brilhantes apresentações, passistas dignos de honrarias, dotados de habilidades fantásticas e magníficas evoluções. Compositores que dignificaram a escolha de Poesia pelo Samba. E daí em diante o destino se incumbiu de perpetuar esta linda união.
E eu, Anfitrião da Silva, que tive o prazer de recepcionar a linda Poesia posso dizer que gostei muito da escolha. Não que eu não goste de outros ritmos. Não é isso. Mas me parece que os dois nasceram um para o outro. E, em minha cidade, hoje me delicio com este casal que não só é a cara de minha cidade mas sim de todo meu país.

Luis Carlos Lucafe é formado em administração de empresas, escritor, cantor e compositor.
Em 2012, lançou seu primeiro livro labaredas. Em 2015, foi premiado pela academia fluminense de letras pela terceira colocação no concurso de contos.Em 2016, foi um dos vencedores do 1º Prêmio Literário Línguas & Amigos – Projeto de Incentivo à Leitura, na categoria Conto (coletânea).

Contato: luiscarloslucafe@gmail.com

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1 comentário :

Anónimo disse...

Perfeito!!!! Parabéns, lindo conto!!!

Alessandra