10.16.2016

Encantador de Borboletas





AUTO PREFÁCIO NARRATIVO

Descido na queda das águas do Itiquira, fui borrifado nesse meu sertão. Terra boa e de gente boa! Aqui, em Formosa dos Couros, ou a gente dá no couro ou perde o couro! Lá, depois da curva do caminho, depois das encruizilhadas das minhas estradas de chão, deixei a poeira assentar. Sentei-me na minha sombra e me puz a ruminar ideias. Eu não sabia, ainda, que a sombra do mundo era maior do que a minha. Depois, em muitos depois, fui saber que sombra tem tamanho e peso. E como pesa!
Eu queria contar uma história, a minha história de família. Mas não sou contador de história. Aí, como as histórias são feitas de personagens, lugares e fatos, coloquei os fulanos falando por eles mesmos. Só aqui e ali, quando a curva era mais torta, a poeira mais alta ou a pirambeira maior e o peão está sem fôlego para bater a própria matraca, um personagem fala pelo outro ou eu me ponho no papel de narrador. Uma onisciência terrena, vapor de suor feito a mão. Água que escorre vira rio e rola para arredondar as pedras.
Misturei tudo num caldeirão em fogo brando na fornalha acesa a vida inteira. Foi nessa chapa quente sobre muita cinza de madeira velha e ebulição de tição verde que fiz labareda. Cinza mistuirada, mas deve servir para a diquada do sabão caseiro. Afinal, a gente suja a roupa do destino e, depois de ensaboar e quarar, enxaguar na água limpa, torcer e secar, ela pode ser usada. Algum dia essa roupa precisa ser vestida para a gente sair de casa. Bem vestido é estar de roupa limpa. Pano estampado ou colorido é só o trançado e urdido da lavoura de elgodão. Cada guacho é tecelão do próprio ninho.
Ninho de guacho é de cabeça para baixo, mas cria filhores barulhentos que saem voando. É isso: cada um voa do seu jeito, como e até onde puder. Trevo de três folhas é anomalia mas, se vive, tem poesia.
Agora vou caminhar um pouco, de volta para casa. A pamonha está cozida e tem queijo quente, gostoso! Estou ouvindo o grito da cozinha me chamando para matar a fome de viver. Até mais ver, depois do quimo.
 

Começo querendo colo
Para prevenir feridas
E para abrir os meus olhos
Ante os espinhos da vida.
«•»

Obra agraciada no Prêmio Literário Línguas&Amigos – Projeto de Incentivo à Leitura 2016, categoria Romance. 


O Livro



Edição: 1(2016)

Coloração: Preto e branco

Formato: EPUB

 


O Autor

J. Simões

José Ferreira Simões (J. Simões) é professor aposentado, pela Secretaria de Educação do DF. Bacharel em Letras, com Mestrado e Doutorado em Educação. Foi professor da Universidade Católica de Brasília (em que atuou na extensão, com o Projeto de Empregabilidade) e do Unieuro. Trabalhou com projetos sociais, socioeducacionais e socioambientais na Associação Amigos do Peito Verde – APV; Membro Academia Taguatinguense de Letras – ATL, em que foi Presidente por 13 anos, com 8 mandatos consecutivos. Atualmente trabalha com projetos sociais pelo Instituto Socioambiental Calangos do Planalto – ISACAP. Em janeiro de 2015, fundou e preside o AQUÁRIO – Instituto Socioeducacional, Tecnológico, Ambiental e Cultural de Desenvolvimento Sustentável – AISTAC.

É escritor/poeta eclético. Escreve poemas, crônicas, contos, romances e novelas. Autor, em poesia: Grito ao Tempo, Voo Para a Liberdade, Gotas de Fantasia, Escada da Vida e Comunidade de Destinos. Em prosa, romances infanto-juvenis: Aprendizes do Amor, Amigos do Peito Verde, O Aquário. Em novela infantil: Teo, o peixinho que queria voar; Contos infanto-juvenil: A Árvore do Amor, Castigo Pra Cachorro, Priscylla, a menina sonhadora, O Menino e o Rato; literatura universal a novela “As Trincheiras”, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária – 1997 – 1998; Ouriço de Fogo na Rota da Escrita, Retrato Mutante; Contos/Crônicas: A Moça do Rio, A Grande Corrida. Livro técnico: Língua Portuguesa aplicada à leitura e à produção de textos.



Apoie a Literatura! Proteja a Natureza!

Incentive o autor e a publicação de novas obras digitais!

•±•

Sem comentários :