10.16.2016

Elicio Santos - Cartas Marcadas


Elicio Santos começou a escrever na adolescência, a princípio somente poesia. Retornou com toda a força à seara literária em 2011. É estudante de Direito em Ilhéus, Bahia, faz colaborações periódicas e é cronista fixo da Revista Capítulo Um. Também escreve para o Blog literário “Inspiraturas”. Já venceu seleções da Revista Avessa. É completamente apaixonado pelo poder das letras. Cursou três oficinas literárias com o jornalista e escritor Marcelo Spalding. Já publicou os livros publicados: “Vozes Poéticas” (Garcia Edizioni); “Contos Urbanos” (Editora Multifoco) e está às vésperas de lançar mais um livro de contos, pela Editora Lynce, cujo título é “Fábrica de Sentidos”.

Contato: elicio.nascimento@hotmail.com

Obra Premiada:

CARTAS MARCADAS

Por: Elicio Santos

O horizonte largo e desimpedido. Azul. Claro. As ondas se rebentam danadas nas rochas. O vento da meia-tarde esvoaça os longos cabelos da moça, ao mesmo tempo jorrando-lhe no rosto, feito um consolo de domingo de futebol. Vários corpos deixam-se reverberar pelo sol, alguns de lá para cá e muitos estatelados, na certa a fim de tatuar o fervor do dia na pele, já que dos momentos só se guarda a impressão. Andar quase nu como se sério é quebra de decoro, mas na praia se permite. Mara não enxerga os meus detalhes, pois se mantém concentrada em si mesma. Na verdade, em seu amor. Os banhistas a observam com ressalvas. Quem se cobre muito num meio livre, meio que desanda as normas do ideal convívio. Todavia, ainda se vive uma democracia por estas bandas, ainda.
Os nuances tenros, da face e jeito de Mara, se equilibram para não recair, mas a corda bamba é muito fina. Da última vez ela quase não saía da cabeça. Nem a base dos antidepressivos mais caros. A psiquiatria parece saber tudo de remédios e nada dos humanos. Quem anda escasso de vontades, ao ponto de quase sentir prazer na ausência dele, não tende a fazer do amparo químico o último alento?
O calor passando as visitas guardando o clima: até nas frestas das carnes, se possível. O ar vertendo as vibrações de quem se felicita pelo inútil necessário à existência. As sobras do lazer se acumulando à beira mar. Mara cá com os seus tempos. A massa crepuscular se enche de negrume e o tempo resfria a alma devota da quase menina, de volta ao ato que a marca em antes e depois de si. Sozinha, não fosse o mar que chega e vai como a vida, um viúvo resignado. Os olhos lânguidos da amante obstinada não se molham mais. Mais magra. Mais vazia. Mais entregue ao final. Tudo, menos aceita.
Mara, de repente, após o curto filme de todo dia, foca um vulto. De braços abertos entre as ondas: agora atrativas. De início ela balança o rosto, fustiga as vistas para ter certeza... Ele! Sim! Ergue-se. Nem liga para a areia impregnada ao uniforme escolar, adquirido a muitas penas. Segue devagar, à medida que acolhe a certeza da sua utopia. O sentido de viver se reacende como um fio de promessa. Corre.
Quando encosta a margem revolta, quase imersa na noite, Mara retira os sapatos. Sente o frio subir-lhe das plantas dos pés aos neurônios. Mas o que realmente a eletriza é a presença, agora próxima, corpórea, tangível a invocá-la. “Amor!”, grita alvoroçada. Pula na água salobra e intensa. A farda se gruda ao corpo delgado e afoito, o ar murmura doce enquanto se deixa salgar, o fôlego escorre até a mistura com o ambiente líquido e fundo, os braços tremulam junto às pernas enquanto o peito acelerado se antecipa ao encontro que, aos poucos, arrefece... As pupilas de Mara saem do incandescente ao limbo numa questão de minutos, os poros se abrem constantes à proporção do esforço e o pulso concorda o seu limite quando, finalmente, a mocinha volta à sua metade passada que só existe se desaparecida...
A percepção de Mara se fecha e abre: ela nos braços do seu querido, brilhante e etéreo feito ela, que se abre e fecha: ao infinito.
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