10.16.2016

A Língua do Inho, de Aldenor Pimentel

A LÍNGUA DO INHO

Por: Aldenor Pimentel

Anita era uma criança de olhos e orelhas bem grandes e reparava em tudo o que os adultos faziam e diziam. Uma coisa ela não entendia: por que gente grande fala palavras enormes e complicadas?
Certa vez, uma amiga de sua mãe, quando esteve na casa da família, veio com umas dessas:
— Qual o nomezinho dessa garota fofinha?
— O quê?
— O seu nome...
— Ah, é Anita.
E quando a menina foi conhecer o trabalho do pai, então... nem imaginava o que ouviria:
— Quantos aninhos tem essa menininha linda?
— Como?
— Quantos anos você tem?
— Ah, quatro.
Anita não queria crescer nunca. Adultos falam uma língua estranha, que ninguém entende. A garota não queria ser obrigada a repetir várias vezes a mesma coisa para que as outras pessoas saibam o que ela diz. Nem se imaginava falando que todos os diazinhos, acordava cedinho para ir ao trabalhinho e depois voltava à sua casinha. Adulto complica tudo!
Para ela, estava de bom tamanho chamar o sol de sol, a rua de rua e o avião de avião. Anita achava o fim ter que colocar inho e inha no fim de cada coisa. Isso ela não fazia e estava muito feliz assim.
Depois de pensar nessas coisas todas, Anita agradeceu a Deus por ser criança e dormiu como um anjo na sua caminha. Quer dizer, na cama onde só havia espaço para ela e os seus sonhos de menina.
•±•

Aldenor Pimentel é natural de Boa Vista-RR. Jornalista, poeta e escritor, recebeu cerca de 20 prêmios e menções honrosas em concursos literários nacionais e internacionais. É autor do livro Deus para Presidência (2015). Mantém o blog O Estado da Arte de Aldenor Pimentel, escreve para a coluna Letras Políticas, do Portal da Escrita, e é colaborador da Revista Pacheco, revista literária on-line.

Contato: aldenor_pimentel@yahoo.com.br

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