10.16.2016

A Lua Cor de Rosa, de Lúcia Coimbra Araújo


A LUA COR-DE-ROSA

Por: Lúcia Coimbra Araújo

— Olha lá. Olha bem. Está vendo? - perguntei para a minha irmãzinha — Fixa bem os olhos naquela direção - apontei com o dedo para o céu. Ela sorriu e maliciosamente disse:
— Ah. Ah. Ah. Vai nascer verruga no seu dedo. Você não sabe, sua doida, que se apontar para uma estrela, nasce uma verruga no dedo?
Eu dei uma gargalhada e expliquei:
— Deluxinha, - era assim que eu a chamava — Nem tudo o que dizem por aí é verdade. Às vezes são estórias contadas pelas pessoas mais antigas e acabam por serem repetidas por muitas e muitas outras. Como essa de nascer verruga, existe várias outras. O nome que se dá a isso é superstição, está bem? – Deluxinha balançou a cabeça afirmativamente e começou a repetir a palavra diversas vezes:
— Superstição, superstição, superstição... - era como se ela estivesse tentando memorizar e quando quisesse poderia repeti-la.
— Presta muita atenção. - repeti. Ela então não tirou mais os olhos de mim, nem do céu. Para que ela entendesse direitinho, falei bem devagar:
— Nossa família não tem posses. Não herdaremos nada. Nosso pai sempre trabalhou muito, mas somos muitos e não deu para ele acumular bens. A coisa importante que restou para nós foi o exemplo de caráter que devemos seguir. Um dia ele me disse o que vou lhe transmitir: nós temos vida, o dia e a noite, e não podemos deixar de contemplá-la, nem ao menos parar de lutar para vencermos os obstáculos que ela nos der. Essa é sua herança! Nossa, melhor dizendo.
Ficamos quietas por um bom tempo pensando e olhando para cima. De repente ela muito engraçadinha retrucou:
— Olha a lua! Ela está cor-de-rosa. A lua é cor-de-rosa. – e riu.
Olhei admirada e percebi que com o reflexo de algo que não deu para notar o que, ela estava mesmo parecendo cor-de-rosa.
— Como um algodão doce. - ela tornou a emendar. E o pior que parecia mesmo! Demos as mãos e não sei por quanto tempo mais ficamos ali olhando a lua, as estrelas, o céu...
Amanheceu e eu corri para a cozinha. Escutei a Deluxinha resmungando que queria mais bolo. Logo em seguida ela começou a tossir. Tossiu, tossiu e tossiu. Estava tendo uma crise de coqueluche. Coqueluche mata e por isso fiquei muito aflita. Naquela época estavam vacinando contra coqueluche por causa de um surto que deu na cidade. Não sei por que fiquei triste e tive um péssimo pressentimento. Desses que quando temos, pensamos que é uma coisa só nossa, que só nós sentimos. Sabe como é? Infelizmente acontece e aconteceu comigo algumas outras vezes.
Infelizmente eu digo, por que dois meses depois, ao longo de muito sofrimento com tratamentos, médicos e remédios, além do isolamento, ela, minha queridinha, foi emagrecendo, definhando até que numa certa manhã ouvi alguns gritos e deduzi. Sim, como havia pressentido ela não aguentou e nos deixou. Digo deixou, porque até a palavra “morreu” eu não gosto muito e não se encaixa no perfil de tanta delicadeza e inocência de uma criança. Para mim ela apenas partiu. Partiu e como todos dizem foi para o céu e virou uma estrelinha. Agora ela está brilhando junto com todas as outras. É por isso que cada vez mais brilha uma estrela diferente.
Fiquei tão arrasada que parecia até que não estava ligando. Muito pelo contrário, queria tanto que ela ainda estivesse aqui, que se eu chorasse ou desse muita conta do que aconteceu, ela realmente ia desaparecer da memória, ficando apenas a dor.
Com o tempo a dor foi diminuindo e tudo voltando a sua normalidade. Afinal de contas, nem mesmo o falecimento de uma criaturinha fofa dessas faria com que o sol deixasse de brilhar, assim como ocorrera num belo dia após essa tragédia. O difícil mesmo foi à chegada da noite, que trouxe consigo a saudade. O jeito era correr para fora de casa, deitar no chão e olhar para o céu. Observei bem e me deparei ali com a lua mais linda que já vira, que para o meu espanto, estava cor-de-rosa.
Acordei atrasada esta manhã. A primeira sensação foi de melancolia, talvez efeito do sonho. Tomei banho correndo e peguei a primeira blusa no guarda roupa. Olhei no espelho para acabar de me arrumar. Adorei o visual, a blusa era cor-de-rosa.
Agora só faltava esperar o dia acabar e com ela a lua.
•±•

Lúcia Coimbra Araújo, mulher, mãe, avó. Natural de Divinópolis - Minas Gerais. Conterrânea de nossa querida escritora Adélia Prado.
 

Fã fervorosa do saudoso Chico Xavier. Torcedora fanática do Clube Atlético Mineiro (Galo). Como a maioria dos mineiros, amante da boa cerveja e das comidas de boteco.
 

Por fim... Devoradora das palavras, com preferência para textos curtos: pensamentos, mensagens e poesias. Autora de vários contos e frases curtas (a quem ninguém consegue imitar! rsrsrs), ainda a serem publicados; é uma sonhadora que se aventura na arte de escrever.

Contato: luciacoimbra59@yahoo.com.br

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3 comentários :

Ricardo Coimbra disse...

Parabéns Tia Lúcia! Lindo texto! Quem venha o livro!

Rejane Silva disse...

Lindo, "estória", inocência, realidade, sonho, perda e muita coragem em continuar, tdo.em um conto muto.bonito. Amei. Parabéns!!!

Lucas Araújo disse...

Perfeito!
Orgulho!!!!! :)